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As Farpas Da Politica, Das Letras E Dos Costumes (Novembro A Dezembro 1882)
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José Maria Eça De Queiroz and Ramalho Ortigão Portuguese ISO-8859-1


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antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se
dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação
das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a
roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora
as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
João v.

Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo--dos
ferros-velhos.

*       *       *       *       *

É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de
resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das
modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a
linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de
não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de
cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na
convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.

Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras
obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos
preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles
fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.

O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
fornecedor privilegiado de Luiz XIV.

Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.

Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á
consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo
immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas,
alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da
elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.

*       *       *       *       *

Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho
mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta
quanto talvez ephemera.

Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela
quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe,
definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á
fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.

Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon
e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry
ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e
bem dissolvente!

Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade
a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta
_nuance_--agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais
aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos
do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o
Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!

*       *       *       *       *

Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se
nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que
foi victima o mais bello gato de sua magestade!

Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
real camara a raparem-o á escovinha.

Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o
ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas
versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja,
sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes
pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente
a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria
no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.

O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente
mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo
pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica
que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!

*       *       *       *       *

Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido
unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um
espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
reconhecel-o e a lamental-o.

*       *       *       *       *

Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.

O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.

Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação
classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como
n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções
archeologicas.

*       *       *       *       *

«Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente
arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!--dizem as
folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir
o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e
d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.
Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de
nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a
religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime
religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora
vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da
nação portuguesa!»

*       *       *       *       *

Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.

O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa
do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas
á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os
bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em
pé outra vez.

Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje,
se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando
a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os
tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.

Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no
primeiro repente gostamos d'elle.

Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é
geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella
affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa,
nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá
ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia
em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.

Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado
n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros
conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece,
estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os
bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram
os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu!

Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é
preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em
ninguem.

Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os
peiores de todos!

Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados,
prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se
o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
e o arcebispo de Bragança.

O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é
que é fazenda.

Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão
bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.

O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é
gallinha!

Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o
_Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do
exercito das trevas_.

Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres
melros. Rua, que é a sala dos cães!

Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos,
escusa-se de bispos.

Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e
que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um
pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero
dizer, aos bispos ... da, _Nação_!... Que tal estava a rascada, heim?

E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar.... Vamos nós
agora que o proprio _Diario da Manhã_....--Não queremos melindrar
ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor
de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.
Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_...--

Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja
tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os
melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa
incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
_Nação?..._

Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções
que ha pouco demos á nossa cosinheira:

--Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.

*       *       *       *       *

Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao
governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.

O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para
impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete
cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.

No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco
estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais
propicio para cardinalisar Masella.

Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão--operação a que
se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha,
encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo
ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a
propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é
a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?...

Oh! não.

Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem
exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
distribuição dos barretes phrygios.

O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete
symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento
de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e
borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.

Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--não
temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa
de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
tostões e meio.

De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse
barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do
mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações
balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do
seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara.

Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro,
presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um
direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
dizer em tal conjuntura:

--Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do
turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até
agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos
e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.

*       *       *       *       *

Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que
emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto
entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.

Eis o caso:

*       *       *       *       *

Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel
franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.

Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão
benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
pessimos alguns dos bispos propostos.

--Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justiças
humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca,
desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião
que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião
precisamente opposta á que eu tenho!?...

--Perdão...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v.
ex.ª me consultava....

-Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa
Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no
gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce
por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções
fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto
chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia--que, toda a vez que
um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do
principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes
do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
_quaesguer que elles sejam_--repito-o--é abundarem approvativamente e
jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
liberrimo governo da nação portugueza.

--Mas então,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de
cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça
mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso
da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho
e snr, agora, o vereis!

_--Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela
rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _--Farça!_ O
forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional,
monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de
Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidará
então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o
pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para
ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar
carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!...
Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a
sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs
porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão
efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na
convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés
sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire
sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de
sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe
assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...
Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde
para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de
Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções
literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão
da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os
sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?

Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de
perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e
experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e
drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.

*       *       *       *       *

Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações
dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse
ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se
passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que
se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
folha:

_O nuncio desacatou sua excellencia_.

Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
periodicos ministeriaes.

_Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou
um calor_.

*       *       *       *       *

Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as
causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
occasião d'este jubiloso successo.

*       *       *       *       *

E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem,
nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.

Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--são os pastores das almas,
incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser
considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.

Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os
interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os
bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem,
de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja
o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão?

*       *       *       *       *

Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
pensadores?...

Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:

Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso,
prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal
fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês!

Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino?

Vejamos, sinceramente:

Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
confessar mulheres?...

Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais
a fallar n'isso.

Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados,
que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos?

Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:

--Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos
bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os
bispos.

Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o
governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr
Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o
governo:--para ver se o governo aprende a não ser tolo!

*       *       *       *       *

A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.

Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato
republicano de opposição ao governo.

Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta
que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
do Arsenal na qualidade de vaso de paz.

Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições
pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos
para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.

Parabens a sua excellencia!

*       *       *       *       *

Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia,
passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
Carnaxide.

Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se
inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
gorgeios.

Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos
lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
o milagroso dia de tão prodigiosa santa.

Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
magestoso acima do narravel.

Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em
quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
vida em direcção á faia virente.

Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão--por não ter porco
ao lado.

Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para
as nuvens, exclamou:

Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
negocios do reino.

Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.

--Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex.ª acommodando o stylo á
rude e acanhada comprehensão do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de
Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão!

E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a
exprimir-se em prosa:

--Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?--Trazeis comvosco a
vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?

Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da
facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de
penna e de governação.

Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão
matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um
brando meneio para o pendôr da collina, perguntou:

--Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na
quebrada da serra?

E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
Nossa Senhora Apparecida,

--Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.ª--Dirijamo-nos pressurosos a
elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes
_Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao
templo!...

Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de
infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das
patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o
feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida
para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
publica:

D. Miguel foi á Sé,
Sentou-se n'uma cadeira,
E disso para os malhados:
Esta perna está inteira!

Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra
que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por
outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela
segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.

Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso
milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
submissos em giolhos.

E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde
viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
repetir aos montes e ás hervinhas:

Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em
honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a
Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes
de nunca ter visto Lisboa.

Gloria pois a s.ex.ª!

*       *       *       *       *

Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial
na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.

A patria explorava-o e ria-se d'elle.

Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do
Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o
agraciou a regia munificencia.

Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução
    
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