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lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.
Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes
inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a
alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás
agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
infestam, sevandijam e conspurcam.
Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros.
Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens
politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições
vigentes.
O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.
No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
de pistola.
Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão
portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres
dos seus compatriotas.
Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá:
_A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
«bis» ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de
consternação em que todos se achavam_.
E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de
enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
profunda de tão excelso quão sensivel principe.
* * * * *
Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano,
se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão
manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós
ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:
Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não
têem os povos egualmente?
Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes
testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar
ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
como os reis choram pelos seus bons subditos?
Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um
grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
a queda de um honrado cidadão que morre?
Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:--é
perfeitamente a mesma coisa!
Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
acaba de passar o seu coração generoso e paternal!
Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes,
quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo
póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu
turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
das proezas do tiro ao alvo.
* * * * *
Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista,
os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade,
tanto no coração do povo, como no coração dos principes,--sua magestade
se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.
* * * * *
A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás
vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias
casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.
Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.
A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos _Bandidos_ de
Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
banca e o dos parceiros.
O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de
louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores,
mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim
_algum dinheiro e mobilia._
Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação
intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos
e desapercebidos.
No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
as jogatinas.
Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas
auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de
jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder
discutir com ellas sobre esta questão.
* * * * *
O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
S. João da Foz, ha coisa de vinte annos.
A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na
Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da
Senhora da Luz.
No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro
circulos concentricos.
A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de
uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro
das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
apostas.
Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto
egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas,
particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em
que scintillava um olho de gato e um rubi.
Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
que tinha mais proximo de mim.
Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos
finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o
trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
cartas que em seguida sahia do baralho.
Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo
administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão
lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.
De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
trez de espadas que se achava na mesa.
Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
direita ou para a esquerda das cartas.
O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:
--Mata o rei?
Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:
--Mato-o, sim senhor!
Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um
silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro
e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
cartas 3$000 que tinha posto.
O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso
que comprimia nos dedos.
A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.
Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um
illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
parada egual á minha.
Esta decisão da sorte--eu o confesso--não me regosijou senão de um modo
bem caracteristicamente mediocre.
Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,--somma
recebida n'esse mesmo dia.
Fiquei na batota até pela manhã.
Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada
entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas
e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado
da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã
pautava luminosamente d'azul.
Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.
O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
raivosamente pelos pontos.
O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
o collarinho esverdinhado de transpiração.
O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
convulsões da bronchite.
A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima
de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de
polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet.
Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir
d'ali embora sosinho.
Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
no hotel do Romão, intitulado da Boavista.
Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o
misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.
A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de
um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo
melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação
tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me
atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras
palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa
fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.
Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias
antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um
sovaco.
--Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!--explicou-me elle com voz
estrangulada.
E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o
alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o
bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.
--Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos
lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até
me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle
tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós
os olhos torvos!
--Cão!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
janella.
E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:
--Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000,
para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e
pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a
justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás
partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
noite o rei.....Não sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem
mata um pôrco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este
luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.
--Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
modo que me está a appetecer isso, a mim!
E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras,
remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.
Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão
vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se
entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e
vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.
Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da
Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava
taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu
natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
sempre velados pelo mysterio.
* * * * *
Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
batota!
Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém,
que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.
Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar
de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse
solto.
E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica
de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
assalta e sequéstra as batotas!
Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E
outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
chalaça!
* * * * *
Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos
jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro
_Frei Bandalho_.
Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em
Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á
vulgarisação da litteratura jornalistica.
Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se
ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados
pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho
preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o
_Bisborria_ e o _Pulha_.
A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis
esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores
borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.
* * * * *
S.ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
_Rosalia_ a uma creança de quem foi padrinho.
Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
s.ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama
portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.»
Inclinemo-nos com reverencia!
Elle poz-lhe o nome de Rosalia....
Tornemos a inclinar-nos!
E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
meiados do decimo setimo seculo.....
Prostremo-nos por terra!
* * * * *
D. Guiomar Torrezão, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mão d'anneis
n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:
«Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um
boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul,
impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e
luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?...
«E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do
conde de Sabugosa.»
É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de
um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
pena de experimentar....
De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das
differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos
os gostos d'horta ou de capoeira.
O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.
Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a
musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará
duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.
Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito
da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas.
* * * * *
Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no _Diario de
Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
de escamas de corvina.
Tambem folgamos muito com isto.
Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros
artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se
notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão
genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem
prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das
artes do desenho.
Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do
peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de
suas boas mestras!
Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de
processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a
faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
Leopoldo!
Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto
artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e
que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas
organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos
estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.
* * * * *
Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota
assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis
aprehendidos.
O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida
se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.
Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
empalmou do bolo.
A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime
para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.
E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas
diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.
Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não
chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais
propriamente--uma _vacca_.
* * * * *
Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que
naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não
mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.
Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes,
implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos
baralhos.
Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.
O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam
esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente
gracejo_.
O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de
inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:--aquelle a
quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é
licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.
O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente é
accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.
Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser
chamado a resolver questões d'olhos.
Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de
ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.
O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
que entre esses dois amantes se passou!
O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella
mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.
Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
ironica:
--Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho!
se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua
Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas....
--Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho
para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!
E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes
transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.
Oh! amor!... amor!
Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este
breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia
um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
jornal o serafim a que nos reportamos.
Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta
patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus
collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
juizo.
Diz o jurado:
_Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
ôlho á queixosa?_
Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o
Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
XVII pelas damas illustres.
Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre
que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
obrigação d'este é por-se de rôjos.
* * * * *
Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
Bragança Junior.
Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e
severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia
da patria.»
Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario
de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas
fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
a descobrir que ella era unicamente um lenço.
Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a
attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus
correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir
servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e
cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia
o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.
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Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do
moveis artisticos.
Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança
portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
senhora.
O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao
desafogo de alguns commentarios.
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A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos
de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
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